O ciclo de cortes da Selic trouxe um alívio esperado para o mercado, com a taxa básica já na casa de 14% ao ano. Mas, enquanto o custo do dinheiro desce devagar, outro indicador caminha na direção oposta: a inadimplência entre empresas atingiu o maior nível já registrado no país, chegando a cerca de 9,1 milhões de CNPJs inadimplentes segundo levantamento divulgado em agosto.
Para quem toca um negócio, esse número não é apenas estatística. Cada empresa inadimplente é, em algum ponto da cadeia, um cliente que atrasa um pagamento, um fornecedor que precisa esperar ou uma venda que se transforma em dívida a receber. É por esse caminho que a inadimplência dos outros chega ao caixa da sua empresa.
Dados da Serasa Experian ajudam a dimensionar o tamanho do problema. No segundo trimestre de 2026, as empresas brasileiras acumulavam R$ 86,1 bilhões em operações de crédito com atraso superior a três meses, enquanto o volume total de crédito concedido ao setor avançou apenas 2,3% no período.
O peso maior recai sobre as pequenas e médias empresas: elas representam cerca de 43% da carteira de crédito, mas concentram aproximadamente três em cada quatro reais em atraso. Embora os pedidos de recuperação judicial tenham recuado em relação ao ano anterior, a própria Serasa avalia que isso ainda não indica uma melhora clara na saúde financeira dos negócios.
O efeito é mais mecânico do que parece. Quando um cliente atrasa o pagamento, a empresa continua tendo compromissos com data certa: folha, fornecedores, impostos, aluguel. O dinheiro que deveria entrar não entra, mas o que precisa sair, sai. A diferença é coberta com capital de giro próprio, com crédito bancário caro ou com o adiamento de outras obrigações.
Esse descompasso se agrava justamente porque o crédito segue seletivo. Com a inadimplência elevada, as instituições financeiras analisam com mais rigor cada nova operação, o que reduz as alternativas de quem precisa cobrir um buraco de caixa. O resultado é um ciclo conhecido: cliente atrasa, empresa se aperta, e a própria empresa passa a atrasar com seus fornecedores.
Num cenário assim, a carteira de recebíveis deixa de ser apenas um item do balanço e passa a ser um termômetro. A qualidade dessa carteira, ou seja, quem são os clientes, qual a concentração, há quanto tempo cada título está em aberto e qual o histórico de pagamento, diz muito sobre a resiliência do caixa e sobre a capacidade de a empresa acessar crédito em boas condições.
Também é essa qualidade que define o quanto os recebíveis valem como instrumento de liquidez. Estruturas que antecipam ou securitizam esses direitos creditórios olham justamente para o risco por trás de cada título, e carteiras bem monitoradas tendem a ser mais valorizadas do que carteiras que ninguém acompanha de perto.
A queda da Selic é um bom sinal, mas ela não resolve sozinha o problema de caixa de quem vende a prazo num ambiente de inadimplência recorde. O que protege a operação é a gestão ativa dos recebíveis: conhecer a própria carteira, antecipar riscos e ter alternativas de liquidez estruturadas antes de precisar delas. Em tempos de calote em alta, olhar para o contas a receber com o mesmo rigor com que se olha para as contas a pagar deixa de ser opcional.
A C4 Capital acompanha de perto os movimentos do crédito e da inadimplência no país. Atuamos ao lado de empresas para estruturar soluções financeiras com análise técnica e transparência, porque decisão bem informada é decisão mais segura.